Mulheres Pescadoras



Dezesseis mulheres e uma realidade, a de tentar complementar suas rendas através do pescado. É na rua Arabaiana, no Centro de Tibau, que um grupo de mulheres se reúne diariamente numa das associações mais conhecidas do município com pouco mais de 3 mil habitantes, localizado à Mesorregião do Oeste Potiguar e à Microrregião de Mossoró. Na vegetação, há florestas subcadacifólias, tabuleiros litorâneos e manguezais. A partir da predominância desse tipo de vegetação, foi que surgiu a prioridade pela pesca. 

Há 16 anos, todos os dias, a Cooperativa Tibauense de Pescados (Cootipesca) recebe, sem falta, quatro mulheres dispostas a trabalhar. “São 16 inscritas na associação, mas atualmente temos apenas oito ativas”, declara Tatiana Muniz. Elas acordam antes do pôr do sol, vão ao mar, realizam a pesca juntas, levam à associação, tratam o pescado e vendem. “Eu amo o cheiro do peixe”, diz Maria Auxiliadora, ao falar de sua paixão pelo trabalho. No prédio que funciona a Associação, há também ajuda social há outros grupos da cidade, como é o caso dos Alcóolicos Anônimos (AA). 
 
No local, também são realizados reuniões e seminários com o intuito de capacitar as mulheres para o pescado, instruí-las sobre questões como direito à terra, feminismo e temas de cunho social “Existe uma Tatiana antes e depois daqui [da associação]. Hoje sou outra mulher. Meus pensamentos mudaram, conceitos foram quebrados”, frisa Tatiana Muniz, que já foi presidente da Associação por diversas vezes. 

O projeto surgiu em 1999, quando 20 pessoas, sendo 19 mulheres e um homem se interessaram em fundar uma associação que defendesse os interesses e lutasse pelos direitos dos pescadores e pescadoras de Tibau, até então única fonte de renda de dezenas de pessoas daquele interior potiguar. Desde então, a luta pela permanência da associação não tem sido fácil, segundo declara as mulheres que hoje atuam na associação. 

Falta de apoio governamental, concorrência desleal e ausência de interesse da população em contribuir com a associação são as principais reclamações do grupo. Não obstante, elas conseguem receber recurso financeiro de nações da União Europeia e também apoio da Rede Xique Xique, que faz a ligação da Cooperativa com o comércio da cidade de Mossoró/RN. Além disso, através desse trabalho é possível contribuir para uma melhor renda familiar às oito mulheres que trabalham ativamente na associação. “Não dá para se sustentar somente disso, mas dá para ajudar na renda”, confirma Tatiana Muniz. 

A importância da permanência da associação não é somente pela renda extra. Essas mulheres têm histórico de lutas de terras e costumam participar, todos os anos, em São Paulo (SP), da Marcha das Mulheres, evento que reúne milhares de mulheres de todo o país e também de outras partes do mundo para reivindicar direitos. O grupo também já foi ao Congresso Nacional, em Brasília, por várias vezes, reivindicar seus direitos, atos que foram feitos em conjunto com outros movimentos sociais. 

A história de Tatiana Muniz, Francisca Ozelita e Maria Auxiliadora retrata a realidade de diversas mulheres brasileiras, que persistem, mesmo diante de tantas dificuldades e falta de apoio, a manter de pé um grupo que não luta somente pelos seus direitos, mas também pelo interesse coletivo.
Tatiana Muniz Siqueira, pescadora, coordenada da rede Xique-xique. Participou do surgimento da Associação Tibauense de Pescados (Cootipesca). Desde 1999, ano do surgimento da Cooperativa, Tatiana participa ativamente do grupo. Já atuou como diretora da Cootipesca. Tem envolvimento também no Centro Feminista 8 de Março (CF8), com sede em Mossoró/RN. É também atuante da Marcha das Mulheres. “Através desse conhecimento [do feminismo], tenho outra visão da vida”, declara ao falar sobre sua atuação nos movimentos feministas.

Francisca Ozelita, trabalha na Cooperativa Tibauense de Pescado (Cootipesca) desde a sua fundação em 1999. “Tudo que a gente faz aqui, a gente faz com amor. Eu gosto de trabalhar com o peixe, apesar de termos uma pouca demanda. O lucro é pouco, mas trabalhamos porque temos que manter a cooperativa, como a gente gosta, a gente não quer saber se o lucro é grande ou pequeno. A gente faz porque gosta”, declara ao falar sobre a importância social do grupo na cidade de Tibau. 


Maria Auxiliadora da Silva, mora no assentamento Vila Nova II, distante do prédio da Cooperativa Tibauense de Pesca (Cootipesca), onde é associada desde 1999. É mãe, casada, bisavó. É também aposentada e tem o pescado como renda extra. “Fui das primeiras [uma das fundadoras da cooperativa]. Gosto muito das minhas companheiras e do serviço que faço”, diz.